Revisitando O guardador de rebanhos.
XXIV
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

“Luz concreta do mundo
tu corres-me nas veias
como um destino dúbio
que parará a meio;
a escuridão abstracta
que te sucederá
incuba no meu corpo:
um rio duplicado
é assim este sangue
que fora só de mim
como concreta luz
um dia correrá
a sombra me deixando
sua escura metade”
No post anterior esqueci-me de mencionar o autor.
Cá vai pois: Gastão Cruz na colectânea “Observação do Verão”.
Esse Pessoa!
Adora “ridicularizar” os poetas!
Caeiro, ese mago: siempre vale la pena “revisitarlo”. Un maestro zen disfrazado de pastor en lengua portuguesa. Uno de los experimentos más felices de la poesía contemporánea.
un maestro zen, Barbara querida.