Archive for the ‘caseiras’ Category

Um dia, um blog II

elephant-detailO tempo das coisas passa.  Passou o do blog também, mesmo com a tentativa de reanimá-lo há alguns meses.

Hanói, meu novo romance, está aí na esquina: a previsão de lançamento é junho/julho, pela Alfaguara.

Ficam estas notícias dele, e um até breve.

“David tinha lido numa revista, muitos anos antes, que os elefantes abandonam sua manada ao sentir que a morte está próxima e vão sozinhos procurar um lugar onde não seja difícil encontrar água e abrigo. Os dentes se fragilizam, perdem a eficiência de outras épocas da vida, e os animais vão buscar áreas pantanosas, por exemplo, onde encontram o alimento já amolecido. Parecia ter sido essa a origem do mito do cemitério de elefantes. Só uma coincidência geográfica causada pelas dificuldades da última fase da vida. E era ali que os animais viam seu último dia e davam seu último suspiro, naquele colosso de corpo que antes parecia quase indestrutível. Elefantes não deveriam morrer, não é verdade? Elefantes deveriam viver para sempre. Mas morriam, e sobravam como carcaça, depois ossos, depois o que quer que ficasse dos ossos. Vestígios. Pequenas marcas no chão.”

 

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Do amor

Amour, de Michael Haneke, está sendo exibido num único cinema por aqui. Um dos “alternativos,” que leva o sugestivo nome de “Chez Artiste.”

O amor. O que é? O amor é a personagem de Emmanuelle Riva repetindo “mal… mal… mal…” – é a personagem de Jean-Louis Trintignant num determinado momento esbofeteando-a – são os sonhos e os pesadelos – a xícara de chá oferecida quando a realidade fica excessivamente brutal (mas tão “normal,” e ainda mais brutal por isso: afinal, que outra certeza temos da vida se não a morte?) – as refeições compartilhadas e as refeições não compartilhadas – o modo como cada um faz o possível. O possível. O amor é imperfeito, limitado, confuso e belo. O amor é o amor possível.

Amour é um filme lindo e terrível, e sumamente necessário, na minha opinião.

A primeira coisa que ouvi ao sair do cinema foi a conversa do casal à minha frente. A mulher olhou para o homem e sorriu. “I know you hated it,” ela disse (“sei que você detestou”).

Eu e Paulo tínhamos conosco uma caixa de chocolates quase intacta (e meio derretida). E um silêncio foi conosco no carro, até em casa, em meio à nossa conversa. Havia uma imensa lua cheia sobre a cidade e luzes dos prédios diante de nós, e a vida, a vida em toda parte.

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Pronto

Dizer que tenho um novo livro pronto é sempre temerário, porque livro pronto não existe.

Mas até onde dá para afirmar isso sem dar um tiro no próprio pé, terminei na semana passada a escrita do meu novo romance, Hanói.

Agora ando escrevendo poesia como se ninguém estivesse lendo (e quase ninguém está). E reabrindo o diretório das traduções para uma – trabalhosa – exceção de alguns meses com Stefan Zweig. Minha primeira incursão no idioma alemão.

Hanói, a cidade, é um labirinto de memórias para mim. E não sei se algum dia fará sentido.

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Ele não tinha ideia nem mesmo de como começar a procurar, então digitou no laptop passagens aéreas. Podia ir por Seul, com a Asiana Airlines. Por Hong Kong, com a Cathay Pacific. Por São Francisco e Taipei, com a American Airlines e a EVA Air. Por Tóquio, com a ANA e a Vietnam Airlines.

O mundo era tão vasto. Tão incrivelmente vasto. Parecia mentira que se pudesse subir num avião em Chicago, descer na Coréia, embarcar uma segunda vez e chegar ao Vietnã. Quase desrespeitoso, não? Fazer pouco das distâncias desse jeito. Sobrevoar oceanos e cadeias de montanhas. Desembarcar em lugares onde era noite quando no seu ponto de partida era dia. Em lugares onde era amanhã ou ontem. O mundo era tão vasto.

Ele ainda podia ir mais longe. Continuar a pé, por exemplo, de Hanói até Jaipur. Quanto tempo levaria?

O Google Maps levou a pergunta a sério, com sua inocência de sempre, e lhe informou que levaria 1056 horas. Descreveu em 532 etapas cada passo. Situava a partida no distrito de Hoan Kiem, em Hanói. E continuava, bem intencionado: siga na direção de Hàng Quạt, na Cửa Hàng Ngọc Lâm sudoeste. Passe pela VanArtGallery (à direita em 65 metros). Vire à esquerda na Hàng Gai. Continue seguindo pela Cầu Gỗ. Passe pelo hotel Mai Dza. Vire à direita na Hàng Dầu. E assim continuava, levando o caminhante em certo momento a bordo de um ferry boat, depois conduzindo-o através da barriga do Vietnã e através do Laos, da Tailândia e de Myanmar, até entrar na Índia pelo nordeste.

David pensou no canadense que tinha completado a volta ao mundo a pé não fazia muito tempo. O ex-vendedor de luzes de neon Jean Béliveau. Saiu de casa, em Montreal, em agosto de 2000. Percorreu 64 países e voltou onze anos mais tarde. Jean Béliveau tinha embarcado em aviões e navios quando não havia outro jeito – para ir de São Paulo à Cidade do Cabo, por exemplo.

Agora parecia a David fantástico poder imitar sua aventura. Tendo tempo a perder (de vista), por que não percorrer o mundo a pé em vinte, em trinta anos? Atravessaria mais países. Ficaria mais tempo em cada um deles. Aprenderia línguas. Arranjaria os trabalhos mais simples que houvesse para bancar sua subsistência. Tocaria com músicos do Paquistão, da Rússia, da Argentina. Seria uma pessoa mínima e sem chão, uma pessoa em trânsito. Quando quisessem saber dele, já teria ido embora. Seu rosto ficaria queimado de sol, às vezes de frio, e as rugas ao redor dos seus olhos fariam com que parecesse mais velho e mais sábio do que de fato era.

Levaria Alex e Bruno com ele. Bruno aprenderia sobre o mundo in loco: no mundo. Não na Internet. Não na sala de aula. Não em livros. Nem mesmo em passeios turísticos, na segurança de um hotel, na previsibilidade fotogênica de férias bem planejadas. Jogaria beisebol com monges budistas no Nepal. Em algum momento cairia de amores por alguém, talvez na Colômbia ou em Cabo Verde. Veria a coisa toda como ela era de fato: multicolorida, multifacetada, frequentemente absurda, às vezes violenta, não raro plácida como um lago um segundo antes de você atirar nele a pedra. Expectante, o mundo. Vibrante. Cansado. Exausto. Doente.

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Pode ser mesmo que tudo aconteça por acaso. A vida não é menos bela e terrível por isso. Seja como for, depois de seis anos voltei a estudar japonês, com uma professora que apareceu diante de mim e se chama Yukiko.

Yukiko é o nome de uma das personagens do meu romance Rakushisha, sobre o qual, também coincidentemente (ou não), acabo de escrever a pedido da Mariana Asamiya, que quer fazer uma matéria para o Expresso Japão (onde já escreveu acerca dos meus Contos populares japoneses no passado).

Às voltas com Yukikos, hiragana, katakana, kanji, Rakushishas e que tais, lembrei-me de Kyoto. Aquele lugar no mundo onde eu sei que poderia morar sem susto. Aquele lugar onde algum duplo meu efetivamente mora, e que visito através dos wormholes de muitos sonhos.

 

 

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A Alfaguara, como já contei aqui num post anterior, está relançando a poesia completa de Mario Quintana, em três volumes (acho que são três).

Do prefácio que escrevi para o primeiro deles:

‘Consta que se ouvia de Mario Quintana, ao lhe perguntarem se que ele tinha mesmo querido dizer isso ou aquilo com determinado poema (pergunta-assombração que vive no encalço de todos os poetas), a resposta: Mas eu nem sei se quis dizer alguma coisa…

Por trás de uma poesia sem artificalismos, simples, singela, um homem idem. Que poderia cantar com o Peter Gast de Caetano Veloso, “sou um homem comum, qualquer um.” E não obstante sonhar com o ingresso no céu depois da morte, conduzindo por anjos “num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens,” lamentando contudo a ausência dos seus desafetos: “Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos, num palanquim de ouro!” (“Inferno”)

Quem luta para encontrar a simplicidade na escrita ou na vida sabe que ela é tudo menos fácil. A crítica enfatiza a “falsa simplicidade da poesia de Mário Quintana.” Eu falaria da simplicidade genuína que encontro ali. E nada mais difícil de alcançar com as palavras. O caroço da escrita, por assim dizer. A essência que não requer nada de “abscôndito” – no delicioso “Acidente de leitura,” Quintana relata: “Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÓNDITO. Que momento passei!…”

Pois nos poemas de Quintana a gente desliza. Não há nada de abscôndito, não há tropeços, não há mistérios oclusos. Falar de “falsa simplicidade” significa atribuir um valor negativo à simplicidade, e reafirmar a qualidade do poeta com essa espécie de alto-lá. Mas em um mundo cada vez mais norteado pelo acúmulo, pelo excesso e pelo ruído (branco, muitas vezes: essa superposição de barulhos sem sentido algum), que por sua vez engendram a superficialidade e o rápido descarte, a simplicidade não apenas parece ser um valor positivo: ela é estratégia de sobrevivência.

Por isso, considero a poesia de Mario Quintana mais necessária do que nunca. Pois a vida se aperfeiçoou em interromper os momentos atentos à vida, como disse de modo tão exato o meu amigo Malcolm McNee, professor em Smith College, com quem ensaiei em conjunto uma tradução para o inglês de “Momento,” um dos poemas deste volume (“O homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. A insidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio um riso límpido e irresistível — em i, em a, em o — do fundo de um pátio da infância. Um riso… Senão quando o homem achou os fósforos e a vida recomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes…”)

Ao tentar traduzir Quintana, aliás, vemos mais uma vez como o simples não raro requer muito esforço. O “fundo de um pátio da infância,” essa imagem despojada e ainda assim úmida de sentimento, ou a constatação de que “a vida é cheia de pacotes,” um cutucão na falta de olhos atentos ao que está em curso enquanto nos ocupamos com caixas de fósforos. Quanta coisa, na simplicidade dos quintanares. “Eu nada entendo da questão social. Eu faço parte dela, simplesmente,” o poeta escreve, e com isso reivindica a experiência que ultrapassa em muito qualquer consideração que se possa fazer sobre ela. Assim é que o silêncio das salas de espera ou a ruazinha em que Marta fia podem conter o mundo inteiro, ao modo do grão de areia de William Blake.’

E por aí vai. Quem puder aparecer lá no IMS amanhã, vá. Além de Quintana, dois caras de quem sou fã de carteirinha: Italo Moriconi e Eucanaã Ferraz.

Falando em Alfaguara, a Granta número 10, que sai em novembro, traz um conto inédito meu: “Aquele ano em Rishikesh,” inspirado por uma canção de George Harrison. Vamos ver.

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Meu novo romance, Hanói, vem sendo talvez o mais difícil de escrever e ao mesmo tempo o que mais prazer tem me dado. O prazer vem, basicamente, do convívio com um personagem trompetista, que tem me levado por viagens musicais incríveis. Graças a ele, Hanói tem uma primeira playlist já pronta, e uma segunda em construção.

Não por acaso, depois de duas décadas um violão volta a fazer parte da minha vida. Comprei um Takamine, e se ainda não dá para tocar “Mood for a Day,” do Steve Howe, que tocava na adolescência, venho desenferrujando com algumas coisas mais simples. E com uma alegria imensa. Temos agora um trio dentro de casa: violão, piano e baixo acústico. Resta só o Gabriel achar que não é creepy tocar com a mãe dele.

 

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