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Moda

Todas as vezes que abro o jornal (online) e me deparo com manchetes tipo “SPFW – veja o look dos famosos” eu me esforço para não me irritar.

A moda é uma estupidez. Jogue fora a cor amarela do ano passado – ou da estação passada, ou da semana passada – e arranje alguma coisa púrpura. O “famoso” X errou ao usar os cabelos assim, a “famosa” Y errou ao optar por essa bolsinha (“gente, não pooooode!”). A moda que diz, inclusive, como seu corpo e seu rosto devem ser. Não envelheça. Não engorde demais, nem emagreça demais. Adquira tais e tais medidas à base de academia ou cirurgia. E que sejamos todos iguais, quando a única coisa que tem graça são as nossas diferenças.

A moda é uma estupidez. Uma estupidez criada para que, como devotos bem comportados, as pessoas paguem o dízimo ao mercado do imediato, do descartável, do superficial, do absolutamente sem importância, relevância, consequência. E encha os bolsos de quem arbitra que hoje é o cinza com bolinhas azuis, amanhã será o verde com listras brancas. E as pessoas medem forças, comparam-se para ver quem está mais “fashion” ou em forma ou conservada. Uma escala de valores mais relevante do que atitudes, do que gestos, palavras.

A moda é uma estupidez.

Um breve adendo, depois que recebi um comentário anônimo aparentemente ofendido (que não aprovei, porque não aprovo comentários anônimos): não estou falando mal de roupas. Tenho várias amigas costureiras – aí mesmo do lado está o link para a loja da Denize Barros, La Reina Madre (aliás, parte da história das avós bordadeiras da Denize está em meu livro Rakushisha, cuja protagonista ganha a vida fazendo bolsas) – e eu própria gostaria de saber costurar. Todo mundo precisa de roupa. O assunto aqui, se não ficou claro, é outro: o exagero da indústria da moda, e como ela opera perversamente dizendo às pessoas que o bonito de ontem virou feio hoje – lucro, insistência em um mundo descartável. O fato de sermos pessoas diferentes, com gostos diferentes, corpos diferentes, idades diferentes, deveria ser celebrado – na minha opinião, sempre. Como também deveríamos lembrar que “andar na moda” custa dinheiro, e portanto se torna mais uma exibição de poder e status.

(Caricatura de James Gillray, de 1794, “Following Fashion”)

Revisitando O guardador de rebanhos.

XXIV

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

O assunto não é novo aqui, mas o desdobramento é. Faz umas duas semanas, Mark Bittman publicou, em sua coluna sobre comida na New York Times Magazine, um artigo chamado “No Meat, No Dairy, No Problem” – algo como: “Sem carne, sem produtos de granja, sem problemas.”

Nunca fui uma cozinheira de mão cheia. Isso tem a ver, acho, com certa dose de egoísmo (o desinteresse decorrente do egoísmo, por não querer “perder tempo” com a cozinha). Até que comecei a me dar conta – não apenas por ser casada com um cara que cozinha extraordinariamente bem, e faz o “trabalho sujo” enquanto eu estou comodamente (e arrogantemente) instalada em outras esferas, mas também por ter entre minhas melhores amigas uma chef pernambucana radicada em Denver, Cristina Brayner – do grau de generosidade que existe em cozinhar.

Servir comida está entre as coisas mais básicas (e simples, e boas) que temos condições de fazer pelo outro. Claro: comer, depois de respirar, é também a ação mais simples e vital do nosso corpo, e aquela pela qual passa a maior parte da nossa relação com o mundo – verdade que aquilo que lemos, vemos, ouvimos etc. também é alimento, num certo sentido, e por isso tantas vezes vale a pena tapar os olhos e/ou os ouvidos (a quantidade de junk que nos empurram é assustadora).

Mas falando estritamente de comida. Não apenas dar de comer é a quintessência da generosidade, na minha opinião, como aquilo que damos de comer (a nós mesmos e aos outros) tem um impacto direto sobre o mundo em termos éticos, sociais e ecológicos.

O preço da proteína animal, por exemplo, se comparado ao preço da proteína vegetal, e sua inadequação a um mundo de sete bilhões de habitantes onde muitos ainda passam fome. A poluição decorrente da indústria de carne, e o quanto ela colabora para o aquecimento global ao ser a maior responsável pela produção de gases de efeito estufa. E, claro, o fato assustador de matarmos mais de cinquenta bilhões de animais anualmente em nome do nosso paladar – a cada segundo, 1680 animais são mortos no mundo para virar comida, de acordo com as estatísticas (fonte: Change.org)

Então, pensando em tudo isso, ontem coloquei uma música – o CD “And Then Nothing Turned Itself Inside Out,” do Yo La Tengo – recrutei uma taça de vinho como companhia, muni-me de paciência, tofu, arroz, cenoura, ervilhas, gengibre, amendoim, alho, óleo e shoyu, e fui preparar uma das facílimas receitas veganas (ou seja, sem qualquer tipo de proteína animal) sugeridas por Mark Bittman em sua coluna. Com vontade de fazer disso um hábito.

Resolvi compartilhá-la aqui. Vai que entre os leitores há algum cozinheiro precisando sair do armário – ou algum vegano precisando sair do armário. Se alguém teme pela sua saúde, o meu testemunho: sou vegana há dois anos – e vegetariana há onze – e vou muito bem, obrigada. Com o que os exames médicos concordam. Na verdade, uma alimentação baseada em plantas ainda tem esse fantástico efeito colateral – o de fazer bem à saúde.

ARROZ FRITO
1. Comece com cerca de 3 xícaras de arroz cozido, já frio.

2. Doure 250 gr de tofu extra-firme cortado em cubos com um punhado de ervilhas (a receita diz snow peas, um tipo de vagem, mas não encontrei e fiz com ervilhas comuns), outro punhado de cenoura picada e amendoim em três colheres de sopa de óleo vegetal em fogo médio, mexendo até as cenouras começarem a ficar macias.

3. Acrescente um pouco de alho e gengibre ralado, colocando em seguida o arroz; cozinhe, mexendo, até o arroz começar a ficar marrom (use o bom senso se, como no meu caso, se tratar de arroz integral…).

4. Acrescente água suficiente para soltar um pouco a mistura, depois shoyu (molho de soja) à vontade. Sirva.

*

Copio abaixo o artigo na íntegra (em inglês). Há um slideshow com as receitas aqui.

No Meat, No Dairy, No Problem - Mark Bittman

Among your other resolutions — do more good? make more money? — you’ve probably made the annual pledge to eat better, although this concept may be more often reduced simply to “lose some weight.” The weight-loss obsession is both a national need and a neurotic urge (those last five pounds really don’t matter, either cosmetically or medically). But most of us do need to eat “better.”

If defining this betterness has become increasingly more difficult (half the diet books that spilled over my desk in December focused on going gluten-free), the core of the answer is known to everyone: eat more plants. And if the diet that most starkly represents this — veganism — is no longer considered bizarre or unreasonably spartan, neither is it exactly mainstream. (For the record, vegans don’t simply avoid meat; they eschew all animal products, including dairy, eggs and even honey.)

Many vegan dishes, however, are already beloved: we eat fruit salad, peanut butter and jelly, beans and rice, eggplant in garlic sauce. The problem faced by many of us — brought up as we were with plates whose center was filled with a piece of an animal — is in imagining less-traditional vegan dishes that are creative, filling, interesting and not especially challenging to either put together or enjoy.

My point here is to make semi-veganism work for you. Once a week, let bean burgers stand in for hamburgers, leave the meat out of your pasta sauce, make a risotto the likes of which you’ve probably never had — and you may just find yourself eating “better.”

These recipes serve about four, and in all, the addition of salt and pepper is taken for granted. This is not a gimmick or even a diet. It’s a path, and the smart resolution might be to get on it.

(em tradução de Jorge Sousa Braga, a partir das traduções inglesas, francesas e espanholas)

A NEVE CAI

São cada vez mais
numerosos os funerais
como os painéis na autoestrada
ao aproximar-se uma cidade.

Milhares de pessoas
na terra das grandes sombras.
Uma ponte constrói-se
lentamente
direito ao espaço.

*

Pinheiros descarnados
no mesmo pântano —
sempre e sempre.

*

Folhas ocre no outono —
tão valiosas como
os manuscritos do Mar Morto

Celina Portocarrero aceitou traduzir o poema de sábado passado, de Samuel Menasche. Aqui vai a versão dela:

Faces deslizando rua acima
Faces exaltando o compasso
Grande é o deus que os anima
Face a face, passo a passo.

*

Encerro o ano com outros dois poemas de Menasche. Quanto mais leio sua obra, mais devota me torno.

NOW

There is never an end to loss, or hope
I give up the ghost for which I grope
Over and over again saying Amen
To all that does or does not happen -
The eternal event is now, not when

*

RUE

For what I did
And did not do
And do without
In my old age
Rue, not rage
Against that night
We go into,
Sets me straight
On what to do
Before I die -
Sit in the shade,
Look at the sky

*

Duas traduções muito ruins, para transmitir apenas o sentido, seriam:

AGORA
Jamais tem fim a perda, ou a esperança / Abandono o espírito que procuro / Repetindo sem cessar Amém / A tudo aquilo que acontece e não – / O evento eterno é agora, não então

ARREPENDIMENTO

Pelo que fiz / E não fiz / E passo sem / Em minha velhice / Arrependimento, não raiva / Voltado àquela noite / Em que todos penetramos / Deixa claro para mim / O que fazer / Antes de morrer – / Sentar-me à sombra, / Olhar para o céu

Uma resenha de Eduardo Montes-Bradley de Azul-corvo/Azul cuervo para o Nación Apache.

O texto de Eduardo é uma maravilha em si, independente de resenhar meu livro ou o que quer que seja. Mas é claro que dá uma satisfação imensa me deparar com uma leitura que em vez de pregar rótulos procura demoli-los.

Azul cuervo

Por Eduardo Montes-Bradley

Los cuervos son criaturas extraordinarias. También sociedades secretas. Digo: hay sociedades secretas que hacen honor a los cuervos, y hay cuervos que se apiñan en secreto elaborando estrategias de supervivencia. En Charlottesville se dan ambos casos. La Universidad de Virginia alberga a la Raven Society, en el bosque -que encapsula el lugar donde vivo- hay cuervos que insisten en demostrar que son capaces de guardar secretos. Es cierto, son azules, de un azul metálico que también puede encontrarse en el interior del abalón, en la profundidad del mar. No de todos los mares, de algunos. Por ejemplo: frente a la playa de Copacabana.

“Azul Cuervo” es también una novela escrita por Adriana Lisboa. Las críticas se empeñan en decir: “una novela de la brasileña Adriana Lisboa”. Digo: la crítica no entiende, se empeña en clasificar, etiquetar, describir lo indescriptible. Lisboa no es una ciudad, Lisboa no es fácil de catalogar, de doblar, de acomodar, de institucionalizar. Terminé de leer la novela de la mujer que tiene el mismo nombre de capital tercer-mundista-europea cuando el Dash 8-100 de United Airlines tocaba el extremo Norte de la pista de aterrizaje en el aeropuerto en Charlottesville: “Y lo fue”, fueron las últimas palabras con las que la escritora que ya no es de Brasil concluyó. El aterrizaje fue violento, la lectura no. Me gustó terminar el libro justo en ese momento. Ni antes ni después. El avión y yo acabamos juntos.

Me gusta como escribe Lisboa en portugués. También en español, en inglés y en francés. Curiosamente Lisboa puede leerse en cualquiera de esos idiomas conservando su condición de surfista. Es curioso: ni siquiera los traductores consiguen hacer que la escritora vuelque. Dice: “El frío no necesitaba personas que lo inventaran”, y acierta. “Azul Cuervo”, que poco y nada tiene que ver con la búsqueda de una identidad precaria (qué más preocupa a los críticos que a los escritores de verdad) esboza un recorrido curioso, único, del que no hay retorno. Por momentos creo estar releyendo a Martínez Estrada. Lisboa es una antropóloga de la sensualidad, “Azul cuervo” un manual que sirve para entender el origen de las substancias anti-tropicales, para descubrir el paisaje lunar del desierto, la singularidad de una vida hecha de retazos.

Lisboa escribe cuervos, como ninguna Lisboa tiene pena de malecón: “Mi padre podía ser un hombre demasiado viejo, demasiado joven, raro, demasiado lindo, demasiado flaco, brillante, esquivo, calvo, con buen humor, muy gordo, extrovertido, religioso, melenudo, feo, bastante culto, un poco miope, atlético, bastante pendenciero, barbudo, exitoso, dueño de un gran talento musical. Mi padre podía ser padre de otras hijas y otros hijos”

Debería haberlo dicho: en la novela el personaje centra que es una niña de trece años, pareciera estar buscando a su padre. Pero eso no es más que una excusa para confundir a los críticos.

Lisboa escribe con ritmo inusual: canta. Ese ritmo –si hubiera que ponerle un rótulo- leería: “Cadencia atonal que construye melodías incómodas y dulces como el mamey”.

Me gusta como escribe Adriana Lisboa, que no importa que sea carioca, y que escribe para una multitud de miradas desde un lugar carente de nombre. Digo: hace años que un escritor latinoamericano (por llamarlo de alguna manera) no irrumpía fuera de los márgenes mezquinos de la irracionalidad nacionalista para postularse universal. Lisboa hace precisamente eso, quizá sin proponérselo. Aunque me permito dudarlo.

En enero voy a entrevistarme con la mujer que lleva el nombre de una capital tercermundista-europea. El encuentro tendrá lugar en Denver, el objeto: un film documental. Hace mucho que no filmo escritores. Hace mucho que un escritor no despierta en mí esa curiosidad de la que pocos fueron dignos. Por ahora, la idea de regresar a Denver me entusiasma con el rigor de un azul poco frecuente.

CARNIVAL

Faces flowing up the street
Faces glowing to the feast
Great is the god that they greet
Face to face, feet to feet.

*

Samuel Menasche nasceu em Nova York em 1925 e morreu este ano. Foi o genial autor de poemas formalmente rigorosos, mas debruçados sobre o cotidiano, e com uma profunda força meditativa.

(A Claudia Roquette-Pinto me desafiou a traduzir o poema acima. Ainda não aceitei o desafio. Celina?)

The Iraq War Disaster

by Raed Jarrar

Millions of Iraqis are celebrating the U.S. withdrawal this month, in what is widely viewed as a condemnation of the U.S. military involvement in Iraq. This is especially true with the final attempt by the U.S. government to maintain troops under NATO being rejected by the Iraqis. While President Obama, Defense Secretary Leon Panetta, and other U.S. officials are trying their best to make the U.S. involvement in Iraq sound like a success, the vast majority of Iraqis see the 20 years of war with the U.S. as a major disaster that has destroyed their country.

There is no victory and no victors in the 20-year war. Except for a few war profiteers, everyone has lost. The U.S.-Iraqi war that started in 1990 has destroyed Iraq’s infrastructure and damaged the Iraqi social fabric. Iraq is far from having a functional democratic government. It is the fourth most corrupt country in the world according to Transparency International, and Baghdad is the worst city in the world according to Mercer’s 2011 Quality of Living rankings. One million Iraqis have been killed in the last eight years alone, and another 5 million displaced. Millions of others have been injured and traumatized for life. Tens of thousands of U.S. troops have been killed and wounded, and hundreds of thousands are back home with mental injuries. Iraq and the U.S. lost hundreds of billions of dollars because of the conflict.

While ending the U.S. military occupation is a step in the right direction, the U.S. will continue its intervention in Iraq through 16,000 State Department personnel — half of whom are armed mercenaries. Downsizing the U.S. State Department’s mission in Iraq is very important to insure a balanced bilateral relationships is built on mutual respect. There is no reason for the United States to have a larger mission in Iraq than the Iraqi diplomatic mission in the U.S., which is estimated to consist of a few dozen employees.

Today’s withdrawal is great news for the millions of Iraqis and Americans who have opposed this war all along. But ending the occupation does not end the U.S. moral and legal obligations to compensate Iraq and Iraqis for the crimes and mistakes committed in the last two decades. In addition, holding U.S. officials who caused this mess legally accountable will help achieve U.S.-Iraqi reconciliation, and it will send a strong message to future U.S. politicians that they will be held accountable.

© 2011 Raed Jarrar

Raed Jarrar is an Iraqi-born political analyst, and a Senior Fellow with Peace Action based in Washington, DC.

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O desastre da Guerra do Iraque

artigo de Raed Jarrar

Milhões de iraquianos estão comemorando a retirada dos EUA este mês, no que é amplamente visto como uma condenação do envolvimento militar dos EUA no Iraque. Isto é especialmente verdadeiro ante a rejeição dos iraquianos à tentativa final do governo dos EUA de manter as tropas da OTAN. Enquanto o Presidente Obama, o Secretário de Defesa Leon Panetta e outras autoridades dos EUA estão fazendo o possível para tornar o envolvimento dos EUA no Iraque parecer um sucesso, a grande maioria dos iraquianos vê os vinte anos de guerra com os EUA como um imenso desastre, que destruiu seu país.

Não há vitória e não há vitoriosos nessa guerra de vinte anos. Exceto por uns poucos que lucram com a guerra, todo mundo perdeu. A guerra EUA-Iraque, que começou em 1990, destruiu a infraestrutura do Iraque e danificou o tecido social iraquiano. O Iraque está longe de ter um governo democrático funcional. É o quarto país mais corrupto do mundo segundo a Transparency International, e Bagdá é a pior cidade do mundo, de acordo com o ranking de qualidade de vida da Mercer em 2011. Um milhão de iraquianos foram mortos apenas nos últimos oito anos, e mais cinco milhões foram deslocados. Milhões mais foram feridos e traumatizados para o resto da vida. Dezenas de milhares de soldados dos EUA foram mortos e feridos, e centenas de milhares voltaram para casa com danos mentais. O Iraque e os EUA perderam centenas de bilhões de dólares por causa do conflito.

Ainda que o fim da ocupação militar dos EUA seja um passo na direção certa, os EUA vão continuar sua intervenção no Iraque através de 16 mil funcionários do Departamento de Estado – metade dos quais são mercenários armados. Diminuir o tamanho da missão do Departamento de Estado dos EUA no Iraque é muito importante para assegurar que um relacionamento equilibrado bilateral seja construído, com base no respeito mútuo. Não há nenhuma razão para os Estados Unidos terem uma missão no Iraque maior do que a missão diplomática do Iraque os EUA, que se estima consistir de algumas dezenas de funcionários.

A retirada de hoje é uma grande notícia para os milhões de iraquianos e americanos que se opuseram a esta guerra desde o início. Mas o fim da ocupação não encerra as obrigações morais e legais dos EUA de compensar o Iraque e os iraquianos pelos crimes e erros cometidos nas duas últimas décadas. Além disso, responsabilizar legalmente os funcionários dos EUA que causaram essa bagunça ajudará a alcançar a reconciliação entre EUA e Iraque, e enviará uma importante mensagem para os futuros políticos dos EUA de que eles também serão responsabilizados.

© 2011 Raed Jarrar

Raed Jarrar é um analista político nascido no Iraque, e um Senior Fellow na Peace Action, em Washington, DC.

Artigo publicado pela Common Dreams – www.commondreams.org

Um rascunho

(com um agradecimento a Mariana Ianelli)

O balão leva alguém
para uma volta ao mundo – é
o que você escolhe pensar, pés fincados
no cimento mole da manhã em que
todos os voos são imaginados

ou impossíveis, como o do balão
que brota do horizonte tal uma
pera invertida e cujas cores
mal se podem distinguir (mas você sabe
que as há, se as há sempre, se os balões são
animais do ar, da cor, do risco).

O balão sobe em seu perigo lento.
Daqui de baixo você sorri de sua própria
fantasia (é só um sujeito se divertindo
lá em cima numa manhã
de quarta-feira, só isso) e segue
em frente: uma vez pedestre,
sempre chão.

A produtora norte-americana Heritage Film Project anuncia a realização do documentário Lisboa: Biographical Sketch on Brazilian Writer Adriana Lisboa, a ser lançado em 2012. As filmagens ocorrerão em duas etapas, a primeira em Denver, nos Estados Unidos, durante a segunda semana de janeiro de 2012, e a segunda no Rio de Janeiro, entre 18 e 28 do mesmo mês. O filme, que é produzido pela Heritage Film Project com patrocínio da Embaixada Brasileira, tem direção do escritor e documentarista argentino Eduardo Montes-Bradley, que já realizou trabalhos sobre autores como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Ana María Shua e Luis Gusmán. Montes-Bradley já abordou a cultura brasileira em um filme anterior, Samba On Your Feet, sobre o carnaval carioca.

Uma longa entrevista (em espanhol) com Eduardo Montes-Bradley para a CNN:

Depois de uma série de leituras frustrantes, incluindo um Murakami (não o mais recente, mas Kafka à beira-mar), foi com um prazer imenso que li esta semana o último romance de Julian Barnes e vencedor do Booker Prize deste ano, The Sense of an Ending – ups, desculpe, esqueci que literatura não é pra dar prazer, mas sim pra incomodar. Bem, então reformulo, incomodou prazerosamente, ou deu um prazer incômodo. É um livro sóbrio, preciso, uma reflexão contundente sobre o envelhecimento e sobre as escolhas feitas ao longo da vida – grande parte delas em nome do comodismo (“I had wanted life not to bother me too much, and succeeded”).

Já o novo Murakami, 1Q84, não me interessa. Precisei ler quatro romances dele para chegar à conclusão de que não é um autor relevante para mim – estou mais inclinada a assinar embaixo dos comentários de um leitor do NY Times, que escreveu: “His writing is like fast food: nicely packaged, nicely advertised, in a flashy wrapper, a lot of people like it, not a lot of care went into it and it is not nutritious.” (Este é um blog que cala difamações, gosto de falar bem das pessoas ou de não falar, e se escrevo isso é porque não faz a menor diferença para Haruki Murakami.) Bem: é verdade que muitos encontrarão mérito exatamente nisso, nessa “fast-foodness.”

Agora, minha atual obsessão é um livro de Maira Kalman, espécie de picture book para adultos, chamado The Principles of Uncertainty (não consegui descobrir se já saiu no Brasil). Obrigada, Erô! A primeira página abaixo:

Apenas isto

Criou-se uma película de gelo no vidro da janela, por dentro. Uma fresta imperceptível mas suficiente. Lá fora o termômetro marca alguma coisa em torno de 18 graus negativos. A luz é fria, baça, e a neve gruda nas montanhas esguias. O cachorro busca uma nesga de sol no chão, encontra uma na poltrona, de onde também controla o mundo, de onde olha pela janela para ver se os homens maus já chegaram, com suas pás imensas e gorros coloridos. Tudo é de uma imobilidade atroz. “Não busco o que possa ser dito e não busco o silêncio,” ele citou ontem, referindo-se talvez a apenas isto. Apenas isto.

*

No programa de tevê o cientista se perguntava por que todos os poetas não escrevem fundamentalmente sobre o dado fascinante de sermos, todos nós, poeira de estrelas. Uma grande explosão e a gênese de uma supernova enviaram como dardos os elementos que hoje compõem os nossos corpos e tudo aquilo que nos cerca. Fomos gerados na grande barriga de um sol magnífico. E vivemos num tempo de estrelas, que no futuro hão de se apagar, uma a uma. Não importa: um universo escuro será igualmente digno. Mas o que realmente me fascinou foi a ideia da grande rede de grumos de galáxias, mantida coesa graças à cola da matéria escura. Isso, e um nome: horizonte de eventos: a fronteira imaginária na boca de um buraco negro. (Enquanto isso, cá estamos nós, comprando presentes de Natal, inocentes como criancinhas.)

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