O assunto não é novo aqui, mas o desdobramento é. Faz umas duas semanas, Mark Bittman publicou, em sua coluna sobre comida na New York Times Magazine, um artigo chamado “No Meat, No Dairy, No Problem” – algo como: “Sem carne, sem produtos de granja, sem problemas.”
Nunca fui uma cozinheira de mão cheia. Isso tem a ver, acho, com certa dose de egoísmo (o desinteresse decorrente do egoísmo, por não querer “perder tempo” com a cozinha). Até que comecei a me dar conta – não apenas por ser casada com um cara que cozinha extraordinariamente bem, e faz o “trabalho sujo” enquanto eu estou comodamente (e arrogantemente) instalada em outras esferas, mas também por ter entre minhas melhores amigas uma chef pernambucana radicada em Denver, Cristina Brayner – do grau de generosidade que existe em cozinhar.
Servir comida está entre as coisas mais básicas (e simples, e boas) que temos condições de fazer pelo outro. Claro: comer, depois de respirar, é também a ação mais simples e vital do nosso corpo, e aquela pela qual passa a maior parte da nossa relação com o mundo – verdade que aquilo que lemos, vemos, ouvimos etc. também é alimento, num certo sentido, e por isso tantas vezes vale a pena tapar os olhos e/ou os ouvidos (a quantidade de junk que nos empurram é assustadora).
Mas falando estritamente de comida. Não apenas dar de comer é a quintessência da generosidade, na minha opinião, como aquilo que damos de comer (a nós mesmos e aos outros) tem um impacto direto sobre o mundo em termos éticos, sociais e ecológicos.
O preço da proteína animal, por exemplo, se comparado ao preço da proteína vegetal, e sua inadequação a um mundo de sete bilhões de habitantes onde muitos ainda passam fome. A poluição decorrente da indústria de carne, e o quanto ela colabora para o aquecimento global ao ser a maior responsável pela produção de gases de efeito estufa. E, claro, o fato assustador de matarmos mais de cinquenta bilhões de animais anualmente em nome do nosso paladar – a cada segundo, 1680 animais são mortos no mundo para virar comida, de acordo com as estatísticas (fonte: Change.org)
Então, pensando em tudo isso, ontem coloquei uma música – o CD “And Then Nothing Turned Itself Inside Out,” do Yo La Tengo – recrutei uma taça de vinho como companhia, muni-me de paciência, tofu, arroz, cenoura, ervilhas, gengibre, amendoim, alho, óleo e shoyu, e fui preparar uma das facílimas receitas veganas (ou seja, sem qualquer tipo de proteína animal) sugeridas por Mark Bittman em sua coluna. Com vontade de fazer disso um hábito.
Resolvi compartilhá-la aqui. Vai que entre os leitores há algum cozinheiro precisando sair do armário – ou algum vegano precisando sair do armário. Se alguém teme pela sua saúde, o meu testemunho: sou vegana há dois anos – e vegetariana há onze – e vou muito bem, obrigada. Com o que os exames médicos concordam. Na verdade, uma alimentação baseada em plantas ainda tem esse fantástico efeito colateral – o de fazer bem à saúde.
ARROZ FRITO
1. Comece com cerca de 3 xícaras de arroz cozido, já frio.
2. Doure 250 gr de tofu extra-firme cortado em cubos com um punhado de ervilhas (a receita diz snow peas, um tipo de vagem, mas não encontrei e fiz com ervilhas comuns), outro punhado de cenoura picada e amendoim em três colheres de sopa de óleo vegetal em fogo médio, mexendo até as cenouras começarem a ficar macias.
3. Acrescente um pouco de alho e gengibre ralado, colocando em seguida o arroz; cozinhe, mexendo, até o arroz começar a ficar marrom (use o bom senso se, como no meu caso, se tratar de arroz integral…).
4. Acrescente água suficiente para soltar um pouco a mistura, depois shoyu (molho de soja) à vontade. Sirva.
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Copio abaixo o artigo na íntegra (em inglês). Há um slideshow com as receitas aqui.
No Meat, No Dairy, No Problem - Mark Bittman
Among your other resolutions — do more good? make more money? — you’ve probably made the annual pledge to eat better, although this concept may be more often reduced simply to “lose some weight.” The weight-loss obsession is both a national need and a neurotic urge (those last five pounds really don’t matter, either cosmetically or medically). But most of us do need to eat “better.”
If defining this betterness has become increasingly more difficult (half the diet books that spilled over my desk in December focused on going gluten-free), the core of the answer is known to everyone: eat more plants. And if the diet that most starkly represents this — veganism — is no longer considered bizarre or unreasonably spartan, neither is it exactly mainstream. (For the record, vegans don’t simply avoid meat; they eschew all animal products, including dairy, eggs and even honey.)
Many vegan dishes, however, are already beloved: we eat fruit salad, peanut butter and jelly, beans and rice, eggplant in garlic sauce. The problem faced by many of us — brought up as we were with plates whose center was filled with a piece of an animal — is in imagining less-traditional vegan dishes that are creative, filling, interesting and not especially challenging to either put together or enjoy.
My point here is to make semi-veganism work for you. Once a week, let bean burgers stand in for hamburgers, leave the meat out of your pasta sauce, make a risotto the likes of which you’ve probably never had — and you may just find yourself eating “better.”
These recipes serve about four, and in all, the addition of salt and pepper is taken for granted. This is not a gimmick or even a diet. It’s a path, and the smart resolution might be to get on it.