elephant-detailO tempo das coisas passa.  Passou o do blog também, mesmo com a tentativa de reanimá-lo há alguns meses.

Hanói, meu novo romance, está aí na esquina: a previsão de lançamento é junho/julho, pela Alfaguara.

Ficam estas notícias dele, e um até breve.

“David tinha lido numa revista, muitos anos antes, que os elefantes abandonam sua manada ao sentir que a morte está próxima e vão sozinhos procurar um lugar onde não seja difícil encontrar água e abrigo. Os dentes se fragilizam, perdem a eficiência de outras épocas da vida, e os animais vão buscar áreas pantanosas, por exemplo, onde encontram o alimento já amolecido. Parecia ter sido essa a origem do mito do cemitério de elefantes. Só uma coincidência geográfica causada pelas dificuldades da última fase da vida. E era ali que os animais viam seu último dia e davam seu último suspiro, naquele colosso de corpo que antes parecia quase indestrutível. Elefantes não deveriam morrer, não é verdade? Elefantes deveriam viver para sempre. Mas morriam, e sobravam como carcaça, depois ossos, depois o que quer que ficasse dos ossos. Vestígios. Pequenas marcas no chão.”

 

Leonard Cohen

Como ultimamente tenho me alternado entre Old Ideas, de Leonard Cohen, e Morrison Hotel, do Doors (não sei muito bem por quê), esta magnífica crônica de Mariana Ianelli, publicada em 2011, veio hoje a calhar quando tropecei nela na web.

Quem é Leonard Cohen

Mariana Ianelli
30/04/2011 – Vida Breve

Leonard Cohen era ainda um menino quando foi seduzido por essa mulher de sensualidade litúrgica, pestanas orvalhadas e perfume de vinhas floridas. Devia ter oito ou nove anos quando isso aconteceu, quando a poesia desabou sobre ele dentro de uma sinagoga em Montreal. Desde muito cedo pensou que podia ser escritor, mas nunca esteve absolutamente seguro disso. Foi assim que se mudou para a torre da Música,
duvidando sempre. Foi assim que se viu atado a uma mesa, fadado a esperar por anos a fio até encontrar a palavra certa, o verso perfeito, porque essa era a sua religião. Poeta, monge, cantor, amante são títulos que dizem pouco sobre Leonard Cohen. Melhor dizer que ele já abdicou de muitas coisas, que elegeu um país solitário e içou uma bandeira branca, que discutiu com a Eternidade e uma vez se deitou com uma mulher de ancas infantis em um quarto em Los Angeles. Que adormeceu a meio de um salmo, jejuou em segredo e foi um dos filhos da neve, esse mesmo filho que depois dos cinquenta teve saudades da mãe e desejou levá-la para a Índia e vê-la maravilhar-se com a cinza do Mar Arábico.

Leonard Cohen é esse homem pouco nostálgico, que não pode ser confortado nem guarda remorsos, o que teve o coração desfeito e ficou acordado a noite inteira pensando em alguma forma de beleza. É esse homem que afundou feito uma rocha, que raspou a cabeça, envergou uma túnica e agiu generosamente mesmo remoendo de ódio por dentro. É esse admirador das belas mulheres de Bombaim, o que espera que haja música no Paraíso, o pequeno judeu com sua Bíblia, que escreve sobre as sombras do Holocausto e sobre uma nuvem em forma de cogumelo, aquele que ama Joana d’Arc como uma de suas últimas mulheres.

Leonard Cohen é o estrangeiro que navega numa barca de asas mutiladas, o que compõe um longo poema chamado Isaías, o apaixonado que, mesmo tendo esquecido metade da sua vida, ainda se lembra das coxas de uma mulher escapando das suas mãos como cardumes de peixes assustadiços. É esse homem que uma vez sentiu o seu corpo tão cheio de ternura que se dispôs a perdoar a toda gente. Esse poeta que escreveu durante anos poemas em uma mesa entre ervas daninhas e margaridas no fundo de uma casa em uma ilha do mar Egeu. Esse amante da lua que já tentou remover com seus óleos o feitiço do rival sobre a memória da namorada.

Leonard Cohen canta para o vento porque o vento é amigo do seu espírito de pluma. Ele sabe que os insetos são como os místicos por mal distinguirem entre vida e morte. Sabe que as possibilidades estão aí para serem derrotadas. Sabe também que o seu tempo está se esgotando e que nunca entenderá completamente esse vale de lágrimas. Não espera vitória nem honrarias. Conhece muito pouco do seu próprio nome. Um dia reuniu suas partes todas em torno de uma súplica, desejou morrer na cruz por um amigo, hesitou entre abandonar um amor e acompanhar os peregrinos, deixou sua túnica pendurada no gancho de uma velha cabana de um mosteiro e levou uma mulher até a beira do rio para amá-la, como qualquer outro homem teria feito.

Leonard Cohen está sentado debaixo de uma janela onde a luz é intensa. Está muito perto das coisas que perdeu e sabe que não terá de perdê-las novamente. É esse homem que melhor se sente quanto menos sabe quem é. Esse que agora sobe ao palco para cantar, no auge dos seus setenta e seis anos, com seu chapéu de feltro e seu terno impecável, provando que ainda existe neste mundo uma nota de elegância. Que ainda existe alguém que sente e pensa com elegância. Isso ele nos diz sem palavras, com um sorriso de doçura, apenas.

“He will speak these words of wisdom
Like a sage, a man of vision
Though he knows he’s really nothing
But the brief elaboration of a tube”

Do amor

Amour, de Michael Haneke, está sendo exibido num único cinema por aqui. Um dos “alternativos,” que leva o sugestivo nome de “Chez Artiste.”

O amor. O que é? O amor é a personagem de Emmanuelle Riva repetindo “mal… mal… mal…” – é a personagem de Jean-Louis Trintignant num determinado momento esbofeteando-a – são os sonhos e os pesadelos – a xícara de chá oferecida quando a realidade fica excessivamente brutal (mas tão “normal,” e ainda mais brutal por isso: afinal, que outra certeza temos da vida se não a morte?) – as refeições compartilhadas e as refeições não compartilhadas – o modo como cada um faz o possível. O possível. O amor é imperfeito, limitado, confuso e belo. O amor é o amor possível.

Amour é um filme lindo e terrível, e sumamente necessário, na minha opinião.

A primeira coisa que ouvi ao sair do cinema foi a conversa do casal à minha frente. A mulher olhou para o homem e sorriu. “I know you hated it,” ela disse (“sei que você detestou”).

Eu e Paulo tínhamos conosco uma caixa de chocolates quase intacta (e meio derretida). E um silêncio foi conosco no carro, até em casa, em meio à nossa conversa. Havia uma imensa lua cheia sobre a cidade e luzes dos prédios diante de nós, e a vida, a vida em toda parte.

As notícias do início do ano.

Hanói, meu novo romance, a que ando com certa dificuldade de dar autonomia, deve ser publicado no início do segundo semestre. Se eu conseguir bater o martelo!

Sinfonia em branco, que a Alfaguara, minha nova casa editorial no Brasil, vai relançar – a partir de 2014, relança meus outros romances também – sai igualmente no segundo semestre, em edição corrigida e com um prefácio muito especial: de Pilar del Río, a viúva de José Saramago e presidente da fundação que leva o nome dele. Em 2013, completam-se dez anos que Sinfonia recebeu o Prêmio Saramago.

Fora isso, alegra-me a possibilidade de uma tradução ao árabe de Azul-corvo, e alegram-me os lançamentos do livro este ano na Itália (La Nuova Frontiera) e França (Métailié), e de Sinfonia na Alemanha (Aufbau).

Tudo é devagarinho para quem escreve ficção em português. Mas por isso mesmo cada passo é uma festa.

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Ano Novo

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De aqui

ESPAÇO PREENCHIDO

(Ruy Belo)

 

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria

que uma tarde de domingo nos consente

entre folhas de outono e frases de abandono

E abrem-se-nos ruas

para ir a sítios demasiado precisos

quando um sítio só se encontra

ao fim de todas as ruas e de todos os rios

Somos todos da raça dos mortos

ou vivos mais além

Mensagens de outra pátria não as traz

arauto algum que o nosso tempo vestisse

 

O que é preciso é dar lugar

aos pássaros nas ruas da cidade

 

Em breve, chega às livrarias o novo livro da poeta Mariana Ianelli (O amor e depois, Iluminuras), de quem sou leitora e admiradora. Abaixo, o texto que tive a honra e o prazer de escrever para a orelha do livro.

Conheci a poesia de Mariana Ianelli através de seu livro Fazer silêncio, cujo título já de saída me conquistou: essa exortação, num mundo extrovertido, um mundo compulsivamente loquaz e de ruído em excesso, parece mais do que atrevida: é revolucionária, talvez. Será possível, então, uma espécie de escrita silenciosa? Esta jovem poeta de mão segura confirma que sim. O silêncio está muitas vezes atrelado a uma frequência íntima de reflexão, de contemplação, de espera e temperança, qualidades que encontrei na poesia de Mariana. Uma poesia que não sobra, que não vaza, nem mesmo quando deslumbra.

Na primeira oportunidade me lancei a seus outros livros já publicados, até ter o privilégio de ler os originais de O amor e depois. Encontrei aqui o mesmo cuidado com as palavras que, como disse Jair Ferreira dos Santos, “é severo mas não exclui, antes reforça, a espontaneidade.” Uma “dicção ao mesmo tempo culta, comovente e perturbadora,” como quis ainda Antonio Carlos Secchin.

A língua é companheira de Mariana, é um instrumento que ela usa com a habilidade dos mestres. E como todo mestre, ela renova sua arte. Seus versos, que passam longe do exibicionismo formal e são antes o peneirar do ouro no rio, trazem imagens como o “halo de majestade / dos tigres à beira da extinção,” no belíssimo “Tigres brancos,” ou confirmam: “O amor, até o amor existe, / “Um lunático mendicante que vadia pela terra / À espera de outra chance.” (“Miragem”).

Mas ela é uma artesã cuja poesia nunca revela a costura. O domínio incomum que Mariana tem da escrita nos faz acreditar que, afinal, não há esforço no esforço que seguramente empenhou ali. E o tempo todo sua poesia silenciosa mas possante como poucas na cena contemporânea exorta que nossos olhos “estejam vivos e curiosos (…) / E olhem para dentro alguma vez / E o que vejam / Seja alguma força de sequóia / Presa à terra desde o império de outros tempos” (“Os teus olhos”).

Estaremos à altura da tarefa? Aí está o desafio lançado por Mariana Ianelli. A satisfação que foi para mim a descoberta de sua obra, há alguns anos, vem agora se aliar à alegria de reencontrá-la neste O amor e depois, sempre surpreendente, e absoluta senhora do seu ofício.

Não me restam dúvidas de que estes versos vazados pela temática do amor (e do seu fim, e do que vem depois) – mas não apenas isto – exigem que eu seja uma leitora competente, de olhos e ouvidos atentos. Mas só tenho a ganhar com isso. Pois, como lembra o poeta e editor americano Christian Wiman, acercamo-nos da poesia “para poder habitar de modo mais completo nossas vidas e o mundo em que as vivemos – e para que, sendo capazes de habitá-los mais integralmente, sejamos talvez menos aptos a destruí-los.”